Daqui de onde existo
Ou como a comunidade me faz renascer sempre que preciso
Dezesseis anos atrás, em 2010, montei com mais três amigos uma banda punk. Não foi a primeira, nem a última (desde os 18 anos, devo ter tocado em mais de duas dezenas de bandas), mas foi a única que só tocou fora do país. Nós não sabíamos disso, mas sabíamos que nossa primeira apresentação aconteceria em Bristol, Inglaterra. O nome da banda, inclusive, acabou sendo decidido contando com essa informação: Latin Lovers.
Para entender melhor como isso aconteceu, preciso voltar um pouco no tempo. Seis anos antes, ajudei a organizar um torneio de futsal idealizado em uma Verdurada, tradicional evento de hardcore organizado pelos straight edges de São Paulo: era o Punk&Gol, programado para durar três meses, mas encerrado na terceira rodada por conta de desentendimentos que levaram a uma briga em quadra. Como organizador, decretei o fim da brincadeira, mas vários pedidos (incluindo o meu interior) me fizeram organizar em seu lugar algo mais humilde, com duração de dois sábados: a Copa Autonomia, ainda ligada ao punk/hardcore, mas aberta a qualquer time que quisesse participar. A regra principal: assim como no futebol de rua, não teríamos arbitragem, e os times teriam que se entender coletivamente na hora das polêmicas.
Deu certo, e, depois da primeira, foram mais dez copas nos mesmos moldes. Dois anos depois, em 2006, várias pessoas ligadas aos times da Copa Autonomia se juntaram para fundar o Autônomos FC, que neste mês de maio completa 20 anos. Dois anos mais, em 2008, o Autônomos, já minimamente estabelecido na várzea paulistana, teve notícia da existência do Easton Cowboys&Cowgirls, time antifascista de Bristol, Inglaterra, que já tinha feito excursões para Chiapas e para a Palestina. Fizemos um convite para nos visitar, que foi aceito, e no ano seguinte, 2009, o Autônomos fazia na Lapa seu primeiro jogo internacional. No final da viagem, o Easton fez o convite para irmos dali um ano à Inglaterra, onde todo verão (deles) disputavam um torneio com outros times antifascistas do continente. Arrecadaram grana, nós também, e foi assim que em 2010 o Autônomos foi jogar na Europa — e a Latin Lovers, cujos membros eram jogadores do Auto, aproveitou a carona.
Tenho um vídeo curto desse show. Nenhuma foto. A arte que fizemos para vender nosso CD por lá. Duas das músicas, antes da masterização, uma delas sem vocal. Foi o que sobrou da única apresentação da banda (ou pelo menos a primeira, e a única que eu lembro). Mas este texto não é exatamente sobre a banda, ou o time, ou o futebol, o punk e a verdurada. Ele é sobre aquilo que atravessa todas essas coisas, e que aqui, na parte latina da América, é a tecnologia social mais potente e irrefreável que eu conheço: a comunidade.
Da Verdurada até o The Plough, o pub em Bristol onde nos apresentamos, tudo foi atravessado e construído pela comunidade. Pelas comunidades, na verdade: o Punk&Gol juntou boleiros e punks, a Copa Autonomia alargou o espectro para amigos de bairro, de escola, de faculdade, de movimentos sociais, e o Autônomos levou toda essa gente junta para a Inglaterra para conhecer ainda mais comunidades e, de certa forma, retornar até onde tudo começou: o punk.
Eu era adolescente quando conheci o punk. Meu pai, trotskista, militante clandestino na ditadura, achava que punks eram uns vagabundos que ficavam pelas ruas enchendo a cara e quebrando coisas — e pessoas. Se não dá para dizer que ele estava completamente errado, nos anos 90 o punk já abarcava muito mais que isso, e tinha desenvolvido em torno de si um número grande de comunidades. Transitei por muitas delas, straight-edge, emo, anarcopunk, crust, hardcore, e cheguei na vida adulta completamente possuído pela ideia do faça você mesmo: tomar de volta a capacidade de se organizar e produzir o que quiser. Foi assim que comecei minha primeira banda (e todas as outras depois dela). Foi assim que surgiram o Punk&Gol, a Copa Autonomia, o Autônomos, o Latin Lovers e tudo que veio depois — daria um livro. E foi assim, através da comunidade, que cheguei até o renascimento (mais um) desta newsletter.
Dois meses atrás, num grupo de pessoas brasileiras que escrevem newsletters, surgiu a ideia de fazer mais um “newsletteraço”, ou seja, uma produção em massa de textos em tornos de um mesmo tema. Confesso que me sinto um tanto impostor nesse grupo, onde tem gente cuja newsletter existe há anos, tem regularidade, centenas ou milhares de assinantes. Eu mal consigo escrever uma vez por ano. Mas, como em quase tudo que me atravessou desde que conheci o punk, vi no chamado da comunidade mais uma porta de entrada, um caminho, um recomeço para a Antes do fim. Não foi a primeira vez: já participei de pelo menos outros dois newsletteraços. O tema votado para este foi “Amantes & Latinos” (obrigado, Bad Bunny), e eu demorei um bom tempo para decidir o que eu tinha para dizer sobre isso. Saiu este texto, curiosamente no mesmo mês em que o Autônomos FC completa 20 anos. Eu deixei o time antes do décimo aniversário, mas de lá para cá voltei algumas vezes. Dele, surgiu uma comunidade enorme de times, mais de 20, que hoje se espalham pela Grande São Paulo em diversos torneios, cada um com a sua bandeira. Sem querer, acabamos fomentando uma comunidade. Mais uma.
Bom, não teria como ser diferente. Estamos na América Latina. Somos a América Latina. Olhando para o mapa-múndi padrão, aquele que tem a Europa no centro, nossa parte de mundo fica majoritariamente abaixo e à esquerda.
Daqui, não tem outra forma de existir que não seja em comunidade.

Bad Bunny passou pelo Brasil pouco depois de fazer a primeira apresentação em espanhol da história do Super Bowl. Mais do que fazer absolutamente ninguém ficar sem mexer alguma parte do corpo ouvindo suas músicas, Benito fez muita gente se enxergar dentro de uma identidade latino-americana – e ter orgulho disso. Alguns anos depois de o rapper Residente dizer que isso não é a América, em resposta ao “This is America” de Childish Gambino, Bad Bunny levou ao mundo a palavra de que a América é mais que um único país de ambições megalomaníacas, e sim esse enorme pedaço de terra que começa no norte do Canadá e vai até o sul do Chile, e que é composto por uma infinitude de culturas, idiomas, sabores, climas e crenças. Esta edição do Newsletteraço celebra essa diversidade.
Aproveito a sua presença para te convidar a conhecer as outras newsletters participantes do newsletteraço:
Cadu Carvalho escreve a Tipo Aquilo
Denise Gals escreve a Aprendiz de escritora
Cristiane H. Corrêa escreve a Armário de Aromas
Júnior Bueno escreve a cinco ou seis coisinhas
Marcela Cor escreve a Eu não digo é nada
Fernando Alves escreve a Futebol no Fim do Mundo
Nathália Pandeló escreve a Imagina Só
Leon Nunes escreve O Substack de Leon
Priscilla Brito escreve a Papel de Pão
Victória Haydée escreve a resenhas que ninguém pediu
Vanessa Guedes escreve a Segredos em Órbita
Paula Maria escreve a te escrevo cartas

arte do Cadu Carvalho
Minhas comunidades
Antes do fim…
…de semana: se você está em SP, visite a Cryptorave, na Biblioteca Mário de Andrade, dias 08 e 09 de maio.
…da vida: assista a série DTF St. Louis, sobre envelhecer, masculinidade e solidão. Escrevi sobre ela aqui.
…do mundo: venha comemorar com a Fanfarra Clandestina nosso aniversário de 10 anos, dia 30 de maio, no Bar da Nise.
Antes do fim se propõe a ser um espaço de debate. Então, se qualquer trecho desta edição te deixou com vontade de falar alguma coisa, é só responder este email ou comentar na página, caso você esteja lendo direto no Substack.
Se você não sabe direito quem eu sou, clique aqui.
E se quiser conversar comigo em outras redes, você tem esta opção, esta outra e o meu email.
Até a próxima edição!






Também as vezes me sinto uma impostora no grupo de newsletter rs E adoro um newsletteraço! Calhamos de usar a mesma foto do Torres Garcia, em locais diferentes :)
Quanta vivência irada irmão, massa demais, fale mais sobre quando puder. 🔥🔥